segunda-feira, 25 de abril de 2016

DO ORGULHO NASCE A GUERRA - CAPÍTULO 2 COMBATE MORTAL

          II

COMBATE MORTAL

        


                                

“GRANADAS, EXPLOSÕES, GRITOS E PEDIDOS DE SOCORRO, INIMIGOS POR TODA PARTE, NÃO TEM COMO ESCAPAR DA MORTE. PAZ, NEM PENSAR... AMIZADE, FRATERNIDADE, SENTIMENTOS ESQUECIDOS NO HORROR DESSA  GUERRA SANGRENTA.

         MILHARES DE MORTOS CAEM POR TERRA TODOS OS DIAS, E VÃO CONTINUAR CAINDO EM COMBATES MORTAIS. O SOLDADO  NÃO  SE  SACIA  DE TANTO SANGUE?  DE  TANTA MORTE? DE TANTA DOR?  ATÉ QUANDO VAI CONTINUAR  SE ENGALFINHANDO  EM  TANTAS BATALHAS? ATÉ QUANDO? “


         Uma chuva de granadas estava sendo despejada sobre o grupo, uma das bombas havia atingido um poilu que agonizava. Prontamente, o capitão, ainda segurando o bebê foi em auxílio do soldado agonizante. Com o corpo destroçado, o poilu agarrou Gerrard com força descomunal:

 Non me deixe morrer capitão! Leve-me para casa! Pelo amour de Dieu, tire-me daqui! Non, non, non quero morrer! 


– Por favor, me ajudem – dizia Gerrard, insistindo por socorro, enquanto a criança rolava até um buraco de granada cheio de lama.

 Razan, sem pensar duas vezes, agilmente pegou um fuzil e atirou no poilu, que foi soltando Gerrard aos poucos. O capitão se arrastava devagar, atemorizado; seus olhos estavam inflamados e arregalados, nunca tinha passado por aquilo.
 
Merde! Seu maldito! Você não tem escrúpulos! Seu assassino incorrigível! – gritava Gerrard.

 – Deixe de ser infantil capitão! Ele era só um soldado de trincheira, ia morrer de qualquer jeito, eu apenas antecipei as coisas dando-lhe uma morte mais rápida sem sofrimentos. 

Os inconfundíveis capacetes de aço Stahlhelm ou “baldes de carvão” eram avistados pelos franceses. Enquanto Gerrard se recobrava do susto, a criança afundava num lamaçal. O capitão deu por falta do garoto e rapidamente saiu em seu socorro, mas percebeu que era loucura ir atrás do menino em meio àquela rajada de balas. Seria suicídio atravessar aquele local e resgatar a criança, mas o capitão não tinha tempo nem outra opção e quando ia a seu auxílio um dos poilus se ofereceu para fazê-lo:

 Tratava-se de uma Sturmtruppen (Tropa relâmpago ou de Assalto) era a ponta de lança do Exército alemão. Usavam as mais avançadas armas alemãs, chegavam à linha de frente em caminhões e se infiltravam nas posições inimigas, sempre ao anoitecer e atacando de surpresa as posições defensivas do inimigo. Esses atacantes deviam ter se perdido. A Tropa de Assalto se encontrava numa trincheira estratégica, o que impossibilitava a ofensiva dos soldados franceses, sendo assim, a Sturmtruppen poderia aniquilá-los.


 – Dê-me essa chance capitão. Minha família foi morta pelos boches e chegou o momento de mostrar a eles que não sou um covarde, que posso acabar com esses malditos de uma vez por todas.


 Gerrard ainda hesitou, mas Claudin interveio: – Por favor, capitão, não tenho nada a perder. Monsieur tem uma noiva maravilhosa esperando-o. Viva para cuidar dela. Adieu capitão Gerrard!

 Claudin colocou seu capacete, pegou seu fuzil, beijou o crucifixo que sempre usava no pescoço e correu na direção dos inimigos que não cessavam de atirar. Ele revidava, derrubando quantos alemães viessem à sua frente, como que alucinado. Gerrard, Jacques, Razan e os demais soldados davam-lhe cobertura. Quando já próximo da criança, o rapaz deu um salto e caiu perto de Richard, que se encontrava engasgado com a lama. Num movimento rápido, Claudin agarrou o menino e o abrigou em sua capa, correndo ao encontro de seu batalhão, gritava eufórico:

 – Eu consegui! – E no auge de sua euforia não percebeu que abandonara seu fuzil, quando foi surpreendido pelos gritos de Gerrard:

 – Cuidado, Claudin!

 Os alemães o envolveram numa nuvem de balas, enquanto os franceses gritavam para que ele pudesse alcançá-los. O soldado, já com a visão turva, não distinguia o que via e ouvia. De nada valeu o empenho da tropa, pois Claudin caiu a poucos passos dali com o corpo cravejado de balas em cima de alguns arames farpados, deixando a criança a mais ou menos dois metros de distância em choro convulsivo. Naquele momento o capitão se desesperou e ninguém mais podia detê-lo. Saiu enlouquecido ao encalço do menino e a Tropa de Assalto alemã começou a sair da trincheira e lançar suas poderosas granadas.Os franceses começaram a fugir, porém o tenente Jacques os encorajava. Sem vacilar, o capitão começou a matar um por um, debaixo da cobertura de sua tropa, que atirava sem parar nos inimigos. O capitão abateu cinco, mas ainda havia muitos homens na trincheira, então recomeçou a atirar, de repente deparou com um funesto alemão que manejava uma pistola, o inimigo trajava uma chapa de ferro no peito, espécie de colete à prova de balas. Gerrard disparou várias vezes contra ele, mas nada surtiu efeito, os tiros acertaram o colete de aço.

 Imbuído de uma fúria sem par, mesmo sem munição, Gerrard enfrentou o inimigo saltando com uma baioneta, e com toda sua força buscou o pescoço desprotegido do maléfico alemão, que logo caiu com sangue espirrando pra todo lado. Já com a criança na mão, Gerrard viu o boche morrendo aos poucos e começou a fugir. Como que saindo do nada, surgiram dois alemães tentando acertar Gerrard, mas um soldado francês, de repente, surgiu à frente servindo-lhe de escudo, num gesto nobre. O capitão olhou de soslaio aquele poilu sendo destruído numa explosão de sangue.

 Rapidamente o capitão se projetou contra o chão, mas o corpo do soldado atingido caiu em cima de Gerrard e da criança. Desvencilhando do soldado morto, rastejou pelo chão e esquivou-se do arame farpado; achava-se todo escoriado, com sua roupa destruída. Os franceses agora contavam quarenta homens e os alemães somavam oito, era um grupo pequeno, mas extremamente ágil e eficiente. Assim, os Sturmtruppen remanescentes, sem escolha, começaram a recuar de volta ao buraco de onde haviam saído aos gritos de Razan:

– Seus boches malditos!

 A tropa francesa perseguiu o inimigo e apontando na borda da trincheira inimiga teve mais uma baixa pelas chamas. Uma metralhadora portátil alemã e um lança-chamas estavam dizimando os franceses, mas um intrépido soldado francês jogou uma granada na metralhadora, que explodiu culminado em mais ou menos quatro baixas. Razan projetou-se em cima de dois soldados alemães que se preparavam para lançar granadas, girou rapidamente e transpassou sua baioneta por trás de um soldado. Nesse momento, outro soldado alemão apontou para Razan o lança-chamas, parecia que seria o seu fim, mas um soldado francês disparou um tiro contra o tambor do lança-chamas que explodiu matando o boche que o manuseava. Porém o salvador de Razan levou vários tiros no pescoço e caiu morto na lama fria. Razan estranhou o fato do boche que matou seu salvador não ter tentado enfrentá-lo, mas rapidamente deduziu que ele estivesse indo atrás de Gerrard, que estava com a criança e totalmente desprotegido. Começou, então a subir a trincheira arrastando-se, mas escorregava muito.

 O alemão foi velozmente onde Gerrard estava, apontou sua arma para o capitão e quando ia atirar foi alvejado nas costas por um disparo. Era Claudin que com suas últimas forças, conseguiu sacar um revólver da cintura e atirar. O inimigo, mesmo depois de atingido, diligenciou em cravar a baioneta em Gerrard que então usou as pernas rapidamente, com os pés virou a baioneta contra o inimigo e a arma entrou até o estômago do miserável. 

 – Nada disso importa capitão... A única coisa que eu queria era provar para mim mesmo que não tenho medo desses malditos boches. Mas antes de partir, gostaria que monsieur me tirasse dessa trincheira maldita, levasse meu corpo de volta para casa para que eu possa ser sepultado ao lado da minha família.

 Claudin já não conseguia falar direito, eram essas suas últimas palavras. Gerrard disse: O capitão colocou a mão na cabeça, deixou uma lágrima escorrer até o bigode e disse:– Eu gostava desse rapaz. Tinha apenas dezoito anos. Pobre rapaz!

– Deixe de ser idiota, Gerrard, será que não percebe que esse poilu que você carrega está morto, logo vai começar a feder, pra que ficar carregando mais peso? Ele não é oficial, não vale o sacrifício, é só um soldado de trincheira. Veja se amadurece um pouco, pois está se tornando um cretino.– Não me desacate, Razan! Você não tem compaixão, não enxerga que esse poilu deu sua vida por nós? Merece um enterro digno de herói.– Ah, vá para o inferno você e seus códigos de cavalheirismo! Faça o que bem entender, mas depois não diga que eu não avisei!

 Prosseguiam distanciando-se cada vez mais do Marne, ao encontro das tropas inimigas, transpondo trechos horríveis. Granadas haviam feito crateras enormes invadidas de água e tocos de árvores calcinadas, trincheiras cheias de ratos, vermes e piolhos, rolos de arame farpado e barricadas de sacos de areia sem fim. 

Milhares de cadáveres apodrecendo, estradas difíceis inundadas por chuva e lama, o lugar parecia uma estrada feita de mortos, haviam franceses e ingleses misturados aos corpos dos alemães. Andaram durante muito tempo, estavam totalmente desorientados. Os pobres soldados continuavam aderindo ao capitão na esperança de encontrar os Aliados para que fossem salvos.

 Por vezes viam um poderoso canhão e tanques abatidos pela guerra. O cheiro de sangue e morte rodeava todos os lugares por onde passavam. Gerrard desconfiava, de que um dos maiores confrontos das tropas aliadas de Ferdinand Foch contra os alemães havia acontecido onde estavam passando, nunca viu tantos americanos mortos ao mesmo tempo, estavam ali apodrecendo.

 – Eu faço parte do batalhão do capitão Giraud, tínhamos como enfrentar os boches, cantávamos crendo na vitória final, foi quando ouvimos os estrondos no céu, as sombras negras que se aproximavam de nós, foram apenas segundos, eu olhei de lado e todos estavam mortos...

 –  Mas o que os matou?

 – Deus nos matou, foi castigo por termos destruído aquele hospital de campanha alemão, mas nós não sabíamos, pensávamos que eram soldados inimigos, mas quando percebemos já era tarde, então tivemos que matar todos, e queimar tudo para não deixar testemunhas. O tenente Murêau atirou em um pastor protestante e depois disparou contra uma mulher enquanto ela ainda segurava um bebê, ele quis matar a criança, mas nós não permitimos e deixamos a criança para que Deus decidisse o que fazer...

 – O bebê está bem, mas eu quero saber o que matou seu pelotão?

 – Eu vi os vultos atrás de mim, eram demônios azuis, quando olhei para trás quase todos estavam mortos, havia sangue por toda parte, foi uma emboscada. Quando nos preparávamos para avançar contra um pelotão alemão que se aproximava, uma esquadrilha de biplanos azuis da Fokker surgiu zunindo e dando rasantes, destruindo os poilus com suas metralhadoras. Quando a infantaria alemã chegou quase todos estavam mortos, eles apenas terminaram o serviço, eles sabiam! Os aviões sabiam que estaríamos lá! Eles sabiam!

Em seguida o homem suspirou e morreu. Diante deste fato Gerrard concluiu que havia traição entre os soldados franceses, que talvez o traidor ainda estivesse entre eles. Constatando todo aquele horror, Gerrard denuncia:

 – Eu tenho uma ideia – disse Jacques

 Jacques puxou numa barricada, um saco de areia que guardava um soldado todo dessecado, uma imagem tão horrível que provocou o vômito de alguns poilus. Eles não tinham tempo a perder. O objetivo agora era encontrar o batalhão inimigo e usar o elemento surpresa, armar-lhes uma cilada para pegá-los dentro de suas próprias tocas. Gerrard ainda estava apreensivo com Richard, que havia se intoxicado com aquela lama toda. O garoto se encontrava febril e seus esforços na tentativa de recuperar a criança pareciam em vão.

 Pouco era possível fazer naquela circunstância, mas Richard parecia acalmar-se um pouco quando o capitão lhe dava o dedo para chupar. Jacques brincava com as mãozinhas do sobrinho e observou:

 – Não diga tolices, Jacques. Toda criança tem as mãos suaves e quando ele se tornar adulto, será um guerreiro como eu. Essa tragédia que se abateu sobre nós é tudo culpa minha. Deus está me punindo pelos meus pecados, por eu ter manchado a honra de Elisabeth, enquanto ela permanecia pura para mim na Alsácia eu dormia com outras mulheres, estava em farras constantes com Charles Nungesser e Jean Navarre.

 – Não se culpe meu irmão, você conseguiu se afastar da vida boêmia quando conheceu Georges Guynemer, você se retratou, deixou as farras, procurou ser fiel a Elise, tornou-se um patriota, você se redimiu meu irmão. – Não Jacques, eu não me retratei, se eu tivesse me retratado não teria continuado a dormir com Madame Ormond, manchando a honra de Elise.

 – Estive pensando sobre o ataque aéreo que aquele poilu descreveu. A esquadrilha com aviões azuis é a Jasta 15, comandada por Rudolph Berthold, nosso arqui-inimigo.

 – Você tem razão, mas me admira muito o fato de Berthold ter se envolvido numa emboscada dessa espécie, ele sempre foi um cavalheiro.

 – Gerrard, a guerra muda as pessoas.

 Seguiram e depois de uma caminhada, chegaram perto de um pequeno rio, e o grupo do capitão havia se aproximado da trincheira alemã, e nos olhares dos soldados franceses era visível uma ferocidade sórdida. Os alemães estavam se preparando para uma retirada, algo havia acontecido, as tropas franco-americanas de Foch não estavam distantes, aproximavam-se cada vez mais, empurrando os boches de volta à Alemanha. No local havia muita munição espalhada nos redutos alemães.

 A fortaleza inimiga parecia impenetrável, entretanto Jacques tinha um plano que  não  poderia falhar e todos se empenharam no trabalho de armadilhas de todo o tipo. Alguns dos soldados teriam que penetrar na trincheira e colocar granadas em volta de tudo. Num trabalho intenso durante toda a noite, ali amarraram as granadas para que fossem acionadas ao mesmo tempo.

 – Aonde monsieur pensa que vai?
 – Eu vou ajudar Gerrard.

 – Não minta Razan, você já foi longe demais. Eu sei que você é o traidor! Você enfrentará o pelotão de fuzilamento! Espião desgraçado! Forjou a queda de seu avião para ajudar o capitão Giraud a destruir seu próprio pelotão, mas não contava que eu e Gerrard fossemos tão fiéis à sua amizade, não contava que iríamos procurá-lo, não contava que nós estivéssemos aqui para atrapalhar seus planos. Eu disse a Gerrard que você era o traidor. O capitão não acreditou em mim, seu maldito!

 Oui, você tem razão, eu sou um traidor, mas foi o capitão Giraud quem arquitetou todo o plano, ele foi procurado pelo Alto Comando alemão quando perceberam que podiam perder a guerra, Giraud sabia que havia poucas chances dos boches vencerem a guerra, por isso aceitou o suborno, não fazia diferença se alguns soldados franceses morressem para que ele ficasse mais rico, afinal de contas tantos morreram por muito menos. Giraud me conhecia e sabia que eu aceitaria ajudá-lo em troca de uma pequena fatia do ouro que ele iria receber, eu sempre fui um pobre plebeu, nunca tive as oportunidades que você e Gerrard tiveram, sempre foram aristocratas. Entretanto, eu não me contento com migalhas e resolvi  acabar  com Giraud e receber  o ouro sozinho.
 Oui, os alemães não possuem a astúcia dos franceses – acrescentou Razan.

 E quando Razan virou-lhe as costas, o comandante retrucou:
 Monsieur não perde por esperar, seu gaulês hipócrita: vai morrer como todos os outros.

 Ao ouvir toda aquela conversa, Jacques num esforço extremo, ainda se arrastando com lama que recobria seus cabelos castanhos, conseguiu se erguer; apoiou-se sobre um galho de árvore e foi na direção do pelotão, no intuito de avisar seu irmão de que seria pego de surpresa.

 Os poilus de Gerrard já cantavam  vitória: – Nós somos os maiorais! Voltaremos para casa com o corpo repleto de medalhas, todos os jornais comentarão o fato de poucos homens aniquilarem mais de duzentos alemães.
 Todos sorriam, exceto Gerrard que sentia uma dor dilacerante:

 – Seus imbecis, não posso aceitar que contem com a vitória antes do momento oportuno. Ainda há muitos alemães querendo acabar conosco; nossa munição está acabando e as nossas armadilhas são poucas. Os franceses dançavam ao redor do capitão, certos de terem ganhado a guerra e pouco ouvido davam às palavras dele. Gerrard preocupava-se com aquela situação e principalmente com Jacques e Richard. Enquanto isso, Jacques se aproximava da trincheira de Gerrard, bem como os alemães sedentos de vingança. O capitão tentava desesperadamente um contato por um rústico aparelho de telefone, enrolado por cabos de transmissão que encontrara soterrado na trincheira, mas parecia estar avariado com as bombas. No momento em que estava por desistir... Milagrosamente numa transmissão ruim e cheia de interferências consegue ouvir uma voz de algum lugar. – Aqui é o capitão Gerrard de Burdêau, Alguém pode me ouvir? Pelo amour de Dieu, alguém está me escutando? Por favor, responda.

 – Sim, eu o estou ouvindo.

 – Glória a Dieu! Alguém me ouviu, meu avião foi derrubado; estou perdido em uma trincheira perto do rio Aisne. Por favor, preciso que venham nos resgatar, pois eu e alguns poilus estamos encurralados por alemães e sem ajuda seremos todos massacrados.

 – Capitão, vou passar o telefone para o oficial responsável. Dê-lhe as coordenadas exatas do local onde se encontram. Gerrard passou ao oficial as informações necessárias para que alguma tropa pudesse localizá-lo. Não estavam muito longe. Cambaleante, Jacques aproximava-se de seu pelotão. O sol raiava novamente, mas Razan o avistou de longe e gritou:

 No barro, Jacques tentava se arrastar no meio daquele confronto sangrento e via os poilus caírem um por um na lama fria, muitos ficavam presos nas trincheiras e eram destruídos. Eram cem alemães contra trinta franceses, mas muitos arianos morriam nas emboscadas dos franceses. A noite avançava enquanto os poilus eram destruídos. Gerrard tentou uma última comunicação pelo telefone e foi informado que a tropa mais próxima só conseguiria chegar no dia seguinte. A munição do pelotão francês se esgotava e Gerrard  temia  pela sorte da tropa, visto que uns vinte poilus já se encontravam caídos por terra. Até que os reforços chegassem seria muito tarde. O capitão sabia que precisava agir e num ímpeto largou o aparelho de comunicação e ordenou: Razan estava com aqueles malditos alemães querendo ver as cabeças dos franceses arrancadas e penduradas no inferno. Jacques jamais permitiria isso. A superioridade numérica alemã arrasou os franceses, deixando apenas três combatentes vivos: Gerrard, Jacques e o poilu Patrice, além de Richard, graças a Deus. De longe Jacques avistou Razan comemorando sua vitória juntamente com aquela corja repugnante. O tenente se aproveitou de um momento em que Razan se afastou do grupo para urinar e foi atrás dele, e com a única arma que tinha ainda em seu poder – uma faca aproximou-se de Razan e disse:

 – Eu lhe darei uma chance, vamos fazer um trato justo. Monsieur é um mestre com a faca, e essa é a única arma que tem. Eu o desafio a duelar comigo: você com sua faca e eu com meu revólver. 

– Se for para morrer e levá-lo comigo, eu aceito. Nenhum de nós deve sair vivo daqui.

 Começaram a contar, mas antes do término da contagem um tiro ressoou no campo de guerra... Razan, traidor inveterado, obstinado a fazer o mal, jamais conceberia a derrota. Estava ficando possesso e a maldade cintilava por onde ele passava; embebia-se no inferno. Stocker havia acertado um tiro no braço de Jacques, mas como ele tinha olho de águia, ainda conseguiu acertar sua faca na perna de Razan que vociferava:

 Merde! Eu acabarei com você... Venha seu maldito! Com uma pedra, Jacques acertou a cabeça de Razan. Em seguida tentou escapar, mas Razan pegou sua arma desfechando alguns tiros em direção ao corpo de Jacques que rolava trincheira abaixo, gritando:Os alemães começaram atirar em Razan que gritava de desespero, ouvindo os estrondos das balas que lhe acertaram o ombro. Ele caiu e rolou pelo chão, e naquele momento surge Gerrard no alto de uma trincheira com uma metralhadora portátil alemã, metralhando sem piedade um por um aqueles alemães. Os inimigos revidavam e muitos já haviam sido mortos pelo capitão. De repente, um soldado inimigo preparou uma granada e a jogou próximo à metralhadora que Gerrard manuseava, fazendo-o voar pelos ares. Ensanguentado e bastante escoriado, o capitão ainda pegou um fuzil e aniquilou mais alguns combatentes, porém foi confinado pela tropa inimiga e o comandante esbravejava:

 – Eu sou um herói! 

– Herói! Não me faça rir, o único herói que conheci foi o Barão Vermelho! Que aterrorizou os céus da França abatendo dezenas dos seus aliados!

 Oui, Manfred era um grande piloto. Monsieur perto dele é um verme, ele era um cavalheiro, você não passa de um comedor de porcos. 

Monsieur irá morrer esquecido nessa trincheira imunda! De longe podia se ouvir os estrondos das pancadas que os alemães infligiam ao capitão francês. 

De repente foram despertados pelos choramingos de uma criança... 

 – É uma criança, seu chucrute imbecil!

 – Soldados! Peguem a criança e levem-na daqui – ordenou o comandante.

 Non, non, a criança non!

 Como que se atingido no peito, Gerrard se desprendeu dos dois boches que o seguravam, tentando desesperadamente salvar Richard, mas foi novamente dominado pelos seus agressores. Nisso, tiros vindos da esquerda fulminaram o boche que o segurava, e ouviu-se a voz do atirador: 

– Ela é uma criança alemã! Boche maldito! 

– E Monsieur é mais estúpido ainda. Numa guerra como esta, ninguém vai saber que eu assassinei um maldito alemão que andava com gauleses. Diga adeus para seu papá, bebê! O comandante apontou a pistola para a cabeça do menino e naquele exato momento, Gerrard gritou:

 Noooonnn! O bebê non!

– Fez uma ótima escolha capitão, eu jamais mataria um patrício.

– Morram boches desgraçados!Gerrard pegou a criança dos braços do comandante permitindo a Razan a vingança desejada. O tenente apontou sua metralhadora para o inimigo e indiferente ao olhar estatelado do alemão, descarregou sua metralhadora saraivando seu corpo numa explosão de sangue. Os alemães que restaram se aproximavam armados até os dentes, tentaram acossar Gerrard e Razan como num jogo em que o gato caça o rato, mas os dois conseguiram escapar através das trincheiras. Ali se esconderam e refletiram sobre os acontecimentos; discutiram sobre a culpa, quem seria o traidor, e Razan maquinou a maior mentira de sua vida...

O capitão nada respondeu por que sabia que pela primeira vez Razan tinha razão. Uma massa de carne e sangue misturada com tecido azul dos uniformes franceses estava espalhada por toda parte. Vários soldados jaziam em pedaços. O terreno transformou-se num matadouro, a tropa do capitão se dispersou, mas os inimigos surgiram abruptamente, cercando o grupo francês.






A Sturmtruppen foi dizimada. Quanto aos franceses, os únicos que restavam eram Razan, Gerrard, Jacques, que havia sido transpassado de baioneta e estava muito ferido, com a perna esquerda esquartejada, caído no chão, e Claudin que dava seus derradeiros suspiros. Os outros poilus vivos haviam fugido de pavor imaginando que o pelotão alemão fosse maior. O que era natural, pois qualquer grupo um pouco maior teria acabado com eles. 

 Gerrard colocou seus óculos de aviador para proteger-se da poeira, enquanto o vento batia em seus cabelos claros. Ele pegou a criança e a abrigou em sua jaqueta de lã, foi então na direção de Claudin, segurou firmemente a mão do rapaz que manchava sua roupa azul de sangue:


  – Acabou, não acabou, capitão? Ele balbuciava com sangue escorrendo pela boca.


– Calma, meu filho, você salvou a vida do meu bebê e isso jamais esquecerei. Não se preocupe, vai ser reconhecido como um herói e receberá a Cruz de Guerra Francesa. Eu juro que você será homenageado pelo que fez!



 – Eu juro! Eu prometo Claudin, que eu farei isso. Promessa para mim é dívida e eu devo muito a você. A última coisa que Claudin conseguiu fazer foi abraçar Richard, caindo lentamente morto.



 Gerrard deixou o bebê numa pedra e foi na direção de seu irmão, conseguiu levantá-lo. Quebrou um pedaço de madeira e ofereceu a Jacques para que usasse como muleta. Enquanto isso, Razan gritava:



 – Seus malditos poilus, voltem! Isso é uma ordem! Voltem poilus desertores!



Aos poucos os soldados que haviam fugido foram ressurgindo... E quando fraquejavam pela fome, o capitão Gerrard encontrou comida na trincheira inimiga. Empanturravam de comer e beber; havia carne em conserva, manteiga e pão, embebedaram-se com vinho e brandy para esquecer o horror daquela guerra, roubaram tudo que podiam do inimigo, inclusive bolsas carregadas com granadas. Depois daquele merecido banquete, o capitão Gerrard agregou o pelotão e oraram pelos quatorzes poilus que morreram naquela batalha. Depois providenciou duas macas de improviso para levar Jacques e o corpo de Claudin. Razan, como sempre imponente, ia contra as ordens de Gerrard, dizendo:


O relacionamento entre Gerrard e Razan nunca fora daquela maneira, eram amigos e companheiros de esquadrilha, Razan havia mudado, alguma coisa estava errada. As horas passavam e a insônia tomava conta do grupo.


Ao entardecer avistaram uma fumaça de cor indefinida elevando-se rumo aos céus – visão indescritível que parecia  estar  facetada  com o inferno; aquela fumaça fúnebre erguia-se cada vez mais condensada. Perto do rio Aisne, constataram centenas de poilus mutilados em consequência de uma grande batalha que ali se travara há pouco tempo. Franceses chacinados jaziam ali e o cheiro de sangue era insuportável. Os alemães se certificaram da carnificina implacável, por meio de uma emboscada, os franceses não tiveram nenhuma chance. A tropa de Gerrard foi surpreendida por um poilu quase sem vida, que agonizava... Gerrard aproximou-se perguntando; – O que aconteceu aqui?


 – Existe um traidor entre nós e tudo me leva a crer que essa emboscada era destinada a todos nós, talvez Giraud esteja envolvido, os alemães devem estar nos aguardando entrincheirados para nos destruir. Os inimigos queriam desviar o regimento do capitão Giraud, para aguardá-lo entrincheirados, atacá-lo de surpresa para que todos fossem mortos. O objetivo na verdade era destruir qualquer coluna de infantaria que auxiliasse o comandant Foch, pois a maior parte da tropa que obedeceu às ordens de Giraud foi destruída pela esquadrilha alemã, creio que mereceram isso por terem assassinado a mãe de Richard e aqueles civis alemães daquela forma.



– Nós não podemos esperar aqueles malditos voltarem para nos destruir; precisamos armar uma tática para pegá-los. Meu pai, o capitão e barão Renée de Burdêau, sempre dizia que um homem sozinho, mas de mente brilhante, poderia se sair melhor numa guerra que um batalhão inteiro de cérebros embotados, dessa maneira ele conseguiu vitórias para Napoleão III. O momento carece de ação, do contrário seremos destruídos sem piedade, como este soldado!



 – Veja Gerrard, como as mãos dele são macias! Quando ele crescer será um poeta, um escritor.



 Razan ficou chefiando o restante da tropa, enquanto Jacques pajeava Richard. Gerrard com seus soldados rastejava na lama após a conclusão de sua missão. Razan, inquieto pela demora dos companheiros, decidiu separar-se do grupo que chefiava e rumou para a trincheira. Jacques deixou Richard aos cuidados de um poilu e foi atrás de Razan. O tenente foi surpreendido por Jacques que apareceu por trás e disse:


 Jacques tentou agredir Razan, queria mesmo matá-lo, mas quando foi golpeá-lo acabou atingido por Razan, que desferiu um golpe com seu facão rasgando o estômago do tenente. Não contente Razan o atingiu também na perna, dando-lhe ainda várias pancadas na cabeça. Jacques ficou no chão, estilhaçado, enquanto Razan se dirigia para o reduto do comandante alemão, recebendo  duas barras de ouro por ter traído os franceses. De posse do ouro, Razan relatava os últimos acontecimentos ao comandante alemão, que exacerbado, esbravejava: 



Iah! Foch nos esmagou com seus exércitos Aliados no Marne e agora está com várias divisões norte-americanas, são milhares de americanos nos obrigando à retirada. Minha infantaria sofreu várias baixas! E o combinado era o capitão Giraud receber o ouro e não monsieur!



 As explosões começaram e os alemães pareciam estar perdidos em meio àquela destruição. Corpos e barricadas subiam aos ares; os boches eram esmagados. O inferno se instalava, mas o mistério tinha sido solucionado: Razan e o capitão Giraud eram os traidores. Traição que custou a morte de vários soldados franceses, qualquer grande estrago que eles pudessem fazer era bem vindo para aos alemães. A missão dos traidores era emboscar a tropa para que os alemães a destruíssem, aniquilando assim qualquer auxílio à Foch.


 Os alemães estavam sendo dizimados. O comandante alemão ordenou o cessar fogo na tentativa de armar uma nova estratégia, auxiliado por Razan, que já possuía uma grande amizade com o inimigo, em virtude do ouro e do poder que a Alemanha poderia lhe oferecer. Entardecia. Jacques se arrastava pelo chão em estado deplorável. Ainda assim, camuflado no meio da lama podia ouvir o traidor conversando com o comandante, dizendo que o único modo de vencer os franceses seria surpreendê-los pela retaguarda, visto que Gerrard subestimava os alemães e jamais imaginaria uma ofensiva dessa natureza. Mas essa empreitada só poderia ser realizada à noite. 



– Então ele nos subestima? Toma-nos por tolos? – esbravejava o comandante alemão.



– Aqui é o operador de telefone Frank Latrec, do Marne, eu o estou ouvindo.



– Olhe lá um francês!


 O comandante alemão também o avistou e ordenou – Fogo nele!

– Não, seu imbecil! Monsieur vai estragar tudo – disse Razan.


 Mas já era tarde demais. Jacques já tinha caído ao chão, vítima de um tiro que lhe acertara o ombro. O barulho do disparo desferido contra Jacques despertou a tropa francesa e os alemães tiveram que iniciar a luta numa batalha que parecia não ter mais fim. Houve combate corpo a corpo, trocaram golpes de porretes  espalhando  sangue  por  toda  parte. Três soldados franceses que se colocaram à frente na tentativa de proteger Richard foram prontamente aniquilados, manchando de sangue seus uniformes azuis.


 – Deem-me cobertura!


 E sem que os franceses pudessem sequer pensar, Gerrard atravessou aquele corredor sangrento chamuscado de balas, conseguindo se safar. O capitão corria pelo lamaçal entre troncos de árvores e ainda assim suas reflexões não o deixavam: “O que teria sido feito de Razan? Jacques estaria morto?”. Jacques não estava morto como imaginava o capitão. Mesmo em condição subumana, ia atrás de Razan no intuito de acabar com aquele traidor de uma vez por todas.



– Parece que monsieur  se  saiu  bem  nessa  história, Razan... Ganhou uma boa quantia para nos trair.


  O tenente Razan, assustado, retrucou: – Como já lhe disse, o plano foi todo arquitetado pelo capitão Giraud, eu dei apenas uma pequena contribuição, mas eu tive que assumir as coisas. Matei o capitão por causa de sua ganância e ambição, ele já tinha dinheiro, não precisava do ouro, então precisei eliminar a concorrência. Sim, eu ganhei ouro e ganharei muito mais: poder, fama, mulheres,  dinheiro, enfim, tudo o que um homem sempre sonhou ter na vida. Monsieur tem tudo e eu não, dinheiro pra você nunca foi problema, não é justo comigo, aristocrata desgraçado! E afinal de contas a Alemanha está quase vencida, não vai fazer diferença se alguns franceses morrerem pela vitória de alguns alemães, tantos morreram por nada, pelo menos eu vou sair rico... Por que Gerrard e você tinham que me procurar? Vocês estragaram tudo.


 – Nós éramos amigos, Gerrard fez tanto por você, como pôde ser tão ingrato. Eu não vou consentir! Jamais monsieur se sairá bem, nem que eu leve a vida inteira, caçando-o pelo resto dos meus dias, não escapará!



– Eu me vingareeeeeiiii! 


Razan retirou a faca encravada em sua perna, pensando “Oui, agora acabei com esse porco maldito”. Enquanto amanhecia, voltando para onde os alemães estavam, ouviu a voz do comandante que o chamava. Razan virou-se assustado e o comandante disse: 


Herr Razan é mesmo um traidor, acabou de matar mais um dos seus. Monsieur não gosta mesmo de gauleses, só que eu também não gosto. Monsieur também é um gaulês, então adeus... Soldados fogo nele!


 – Não será morto rapidamente, quero uma morte bem lenta. Piloto desgraçado! Está gostando de ser soldado de trincheira! Acha-se um ás, mas monsieur não é nada, já está acostumado aos vermes e a lama.



– O que é isso seu francês imundo? E encaminhou-se na direção de Richard.



 Gerrard, consciente do perigo, retorquiu:


 – Larguem as armas boches! Ou eu estouro a cabeça de seu comandante que está na minha mira – dizia Patrice, o poilu sobrevivente do grupo de Gerrard.


 Os alemães não hesitaram e renderam-se às ordens, porém, segundos depois Patrice se viu ameaçado por um boche que o surpreendeu por detrás com uma pistola Luger em sua cabeça. 


   – Largue essa arma poilu, senão eu explodo os seus miolos.


 Sem alternativa, Patrice se viu forçado a largar a arma que apontava para o comandante que dizia:


 – Como é que é, capitão? Quem monsieur escolhe para morrer: seu heroico poilu ou essa criança chorona?



 Imediatamente ordenou que matassem o poilu. Um soldado alemão estilhaçou-lhe o crânio, enquanto outro lhe cravava uma baioneta nas costas. Gerrard se sentia culpado por mais aquela morte e encolerizado por toda aquela situação, num único golpe cegou o alemão que o segurava, correndo na direção do comandante para socorrer a criança. Os alemães apontaram suas armas para fuzilar Gerrard e inusitadamente surge Razan com uma metralhadora portátil baleando um por um os alemães.


Razan estivera atento para a primeira oportunidade que possibilitasse acabar com aqueles alemães que o tinham enganado. Gerrard tenciona acabar com o comandante, mas Razan o interpela:– Pegue a criança. O boche é meu.