quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Especial de Natal - Filme Feliz Natal e trecho do livro de Max Wagner sobre a trégua de Natal de 1914, durante a Primeira Guerra Mundial

TRÉGUA DE NATAL



                                                                     TRÉGUA  DE  NATAL  DE  1914

                                                  2014  - 100 ANOS  DA  PRIMEIRA  GUERRA  MUNDIAL  

Estamos  comemorando o centenário  da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), como passou a ser definida pela historiografia, ou a Grande Guerra, como foi apelidada na linguagem popular, devido ao cenário de devastação e morte que trouxe consigo e ao abismo de desespero e desatino provocado por um conflito que penetrava como uma faca no coração da civilização europeia, a da Belle Epoque, que se acreditava finalmente isenta de violência e ódios nacionais. Um conflito, com efeito, que mobilizou milhões de pessoas, tanto moradores de cidades quanto simples camponeses, de França, Reino Unido, Alemanha, Áustria, Rússia, mas também Itália e estados balcânicos, entre outros. E que se caracterizou, desde seu começo, como uma longa, extenuante e alucinante guerra de posição, tendo as trincheiras como cenário principal. 
O inimigo presente a poucas centenas ou dezenas de metros, vigilante como você, prendendo a respiração como você, lutando contra fome, frio e ratos, como você, entre uma rachada de metralhadora, um cigarro e uma carta para casa. A vida de trincheira, de um lado e do outro, apresenta os mesmos dramas e os mesmos ritos de sobrevivência.
Homens, afinal, iguais em seus desejos últimos e em suas esperanças, mesmo que trajando uniformes diferentes ou falando idiomas diversos.
É disso, deste fundamental e universal sentimento de humanidade e de seu componente religioso, o reconhecimento de valores que ultrapassam qualquer divisão e inimizade, que trata o filme Feliz Natal (2005), produzido por vários países europeus e dirigido pelo francês Christian Carion. A inspiração do longa lhe vem de fatos realmente ocorridos no front ocidental, em ocasião do Natal de 1914, o primeiro Natal de guerra. Na véspera e ao longo do dia 25 de dezembro daquele ano, com efeito, soldados de ambas as partes em luta saíram das opostas trincheiras da front ocidental, entre França e Alemanha, em vários pontos de seu traçado,  para confraternizar. Trocas de pequenos objetos, cigarros e chocolate, conversas e celebrações religiosas, cantos natalinos e até partidas de futebol disputadas na terra de ninguém, como é chamado o espaço entre as trincheiras inimigas, caracterizaram aquela que recebeu o nome de trégua de Natal.  Simples soldados e oficiais participaram dos eventos, que não foram programados mas que se produziram espontaneamente em vários pontos da linha de fogo, apesar de não ter recebido aprovação sucessiva pelos altos comandos militares.
O filme traz inspiração da história para acompanhar os percursos de alguns militares (alemães, franceses, escoceses) e de um casal de cantores líricos enviados ao front para enaltecer o ânimo das tropas. As notas de “Noite Feliz”, cantadas por estes em alemão, às quais responde uma cornamusa escocesa, desencadeia a confraternização coletiva entre inimigos. É Natal para todos.
Realmente foi uma noite mais feliz. E a mensagem do longa, apesar de certa retórica presente, mostra como, ao menos no começo da guerra, naqueles primeiros meses, o sentimento e a consciência presentes em boa parte dos combatentes das linhas de frente fossem de repúdio por um conflito percebido como absurdo e tragicamente inútil.
As tréguas não se repetiram nos anos seguintes. A guerra de trincheira deu espaço a batalhas que foram autênticas carnificinas. Outros Natais passaram, a razão de Estado vencera. Mas provavelmente no próximo ano, no dia de Natal, junto à cruz dedicada à trégua de Natal de 1914, em Ypres, Bélgica, alguém se encontrará  para lembrar de um fato inusitado e singular.
Trailer  do  filme
https://www.youtube.com/watch?v=fighueJTqKs

Trecho  da  Trégua  de  Natal,  escrito  por  Max  Wagner  no  seu  livro,  A  Última  Poesia  do  Orgulho  Nasce  a  Guerra.


O   Natal de 1914 - A trégua


A trégua foi observada pelos britânicos e alemães na parte sul do saliente de Ypres, na Bélgica. Entretanto, ela ocorreu em vários outros pontos do Front Oeste e por outros combatentes, principalmente os franceses e belgas, embora o fato que os alemães estavam situados em território francês ou belga inibiu qualquer grande demonstração de boa vontade para com os inimigos alemães. Não era incomum breves cessar-fogo serem taticamente aceitos e observados por uma hora ou mais, como durante o café da manhã em setores mais calmos onde apenas poucos metros separavam as tropas aliadas das germânicas; um caso de viva e deixe viver.


O Natal foi iniciado pelas tropas alemãs posicionadas em frente às forças britânicas, onde uma distância curta separava as trincheiras ao longo da Terra de Ninguém. Muitos soldados alemães tinham como era seu costume na véspera de Natal, começado a montar árvores de adornadas com velas acesas. Surpresos os observadores britânicos informaram a existência delas para os oficiais superiores. A ordem recebida foi que eles não deveriam atirar, mas observar cuidadosamente as ações dos alemães. A seguir foram ouvidos cânticos de Natal, cantados em alemão. Os ingleses responderam em alguns lugares, com seus próprios cânticos. Os soldados alemães que falavam inglês então gritaram votos de Feliz Natal para Tommy (o nome popular dos alemães para o soldado britânico); saudações similares foram retribuídas da mesma maneira para Fritz (nome popular dos britânicos para os soldados alemães). Em algumas áreas, soldados alemães convidaram os ingleses para avançar pela Terra de Ninguém e visitar os mesmos inimigos que eles queriam matar poucas horas antes. As armas não dispararam aquela noite. A notícia se espalhou, histórias começaram a se difundir sobre visitas trocadas entre as forças aliadas (incluindo algumas francesas e belgas)


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e os inimigos alemães. Essas visitas não estavam restritas aos soldados rasos: em algumas ocasiões, o contato inicial foi feito entre oficiais, que definiram em conjunto os termos da trégua, acrescentando o quanto seus homens poderiam avançar em direção às linhas inimigas. Estes termos permitiam o enterro das tropas de cada lado que jaziam ao longo da Terra de Ninguém, alguns mortos há apenas uns dias, enquanto outros haviam esperado meses por um funeral. Homens das equipes encarregadas dos funerais entraram em contato com os membros das equipes similares do inimigo quando, então, conversas se desenrolaram e cigarros trocados. Cartas foram encaminhadas para serem entregues para famílias ou amigos vivendo em cidades ou vilarejos invadidos pelos alemães. Houve até uma partida de futebol entre o regimento inglês de Bedfordshire e as tropas alemãs. O jogo foi interrompido quando a bola foi murchada após atingir um emaranhado de arame farpado. Em muitos setores a trégua durou até a meia-noite de Natal; enquanto em outros durou até o primeiro dia do ano seguinte. Os Governos aliados e o alto-comando militar reagiram com indignação. A igreja Católica, através do Papa Benedito XV, tinha solicitado anteriormente uma interrupção temporária das hostilidades para a celebração do Natal. Embora o Governo alemão tenha indicado sua concordância, os aliados rapidamente discordaram: a guerra tinha que continuar, mesmo durante o Natal. Quase imediatamente à trégua, as mensagens enviadas chegaram para os familiares e amigos daqueles servindo no Fronte. Estas cartas foram rapidamente utilizadas por jornais locais e nacionais (incluindo alguns na Alemanha) e impressas regularmente. Os soldados na linha de frente foram praticamente unânimes em expressar seu espanto com os eventos do Natal de 1914. A reação foi de tanta que precauções especiais foram tomadas para que a trégua de Natal jamais fosse repetida. Os eventos do final de dezembro de 1914 foram proibidos. Investigações foram conduzidas para determinar se a trégua não fo i organizada anteriormente, não conseguiram provar nada. Foi um evento espontâneo, que ocorreu em alguns setores, mas


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não em todos.

A trégua de Natal no Front Oeste foi a mais surpreendente e, certamente, a mais espetacular de que já teve notícia na história da humanidade. Mesmo naquele pacífico dia de Natal, a guerra não foi completamente esquecida; muitos dos soldados que apertaram as mãos do inimigo em 25 de dezembro trataram de observar a estrutura das defesas, para que se pudesse tirar vantagem em qualquer falha dos inimigos no dia seguinte.

O Kronprinz (príncipe herdeiro) Guilherme, filho do Imperador Alemão encarregou-se pessoalmente de humilhar e punir os soldados alemães que confraternizaram com os aliados, muitos foram enviados em vagões de trem para setores onde a morte era certa por causa do frio, principalmente para a Rússia.

Apesar da trégua de Natal, aquele ano havia sido terrível para ambos os lados. Trezentos e seis mil franceses haviam perdido a vida em menos de seis meses de batalhas, o Exército francês possuía 2 milhões de homens, ou seja, em poucos meses a França perdeu quase 20% dos seus homens. Os alemães também tiveram pesadas baixas (241 mil soldados). Aquela guerra era com certeza a mais desumana e mortal da História. Estes foram os últimos acontecimentos do primeiro ano de batalhas da Grande Guerra.

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