quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Os Soldados Brasileiros de Hitler

Pesquisa revela a existência dos soldados brasileiros de Hitler

http://www.dw.de/pesquisa-revela-a-exist%C3%AAncia-dos-soldados-brasileiros-de-hitler/a-2865406

 Estudo recente de professor da Universidade do Paraná mostra que centenas de soldados de ascendência alemã, nascidos no Brasil, lutaram pela Alemanha de Hitler. DW-WORLD entrevistou o Prof. Dennison de Oliveira.

Nascido no Brasil, o 'americano' (c.) se recusou a lutar contra brasileiros

Prof. Dennison de Oliveira
Em Os Soldados Brasileiros de Hitler, o professor Dennison de Oliveira entrevistou diversos cidadãos brasileiros de ascendência alemã que lutaram pela Alemanha de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Segundo o estudo sobre cidadania e nacionalidade entre teuto-brasileiros, cerca de 3 mil brasileiros residentes na Alemanha durante a Segunda Guerra foram repatriados até o primeiro semestre de 1949.
Acredita-se que o número dos soldados brasileiros que lutaram pela Alemanha nazista pode chegar a várias centenas. Sobre o assunto, DW-WORLD entrevistou o professor da UFPR.
DW-WORLDQuem foram os soldados brasileiros de Hitler?
Dennison de Oliveira: Tratava-se de filhos de famílias alemãs nascidos no Brasil. Alguns destes indivíduos retornaram à Alemanha para estudar ou trabalhar, geralmente com suas famílias. Com a eclosão da guerra viram-se impossibilitados de retornar ao Brasil. Ao atingirem a idade de recrutamento foram convocados pelas Forças Armadas Alemãs e engajados em combate na Segunda Guerra Mundial.
O senhor tem uma idéia de quantos soldados nascidos no Brasil lutaram pela Alemanha nazista?
Hoje é impossível determinar exatamente quantos indivíduos passaram por esta experiência, mas o número seguramente atingiu muitas centenas.
Houve soldados alemães de Vargas?

Condecorações de um dos combatentes
Com certeza. No Brasil a conjuntura anterior à guerra é marcada pela campanha oficial de combate aos "quistos" de estrangeiros "inassimiláveis" à cultura brasileira, dentro do projeto de nacionalização compulsória que o regime Vargas (1930–45) adotou. Uma das dimensões dessa nacionalização forçada foi o recrutamento deliberado de descendentes de alemães para as nossas Forças Armadas, tidas como reduto das virtudes cívicas e patrióticas nacionais.
Contudo, houve casos recorrentes de indivíduos de ascendência alemã que se alistaram como voluntários para lutar em nosso exército na Segunda Guerra Mundial, no intuito deliberado de provar que eram "verdadeiros" brasileiros. Afinal de contas, o lema oficial da campanha de nacionalização era "quem nasce no Brasil ou é patriota ou é traidor". É significativo que os dois maiores heróis da Força Expedicionária Brasileira sejam justamente dois destes indivíduos: o sargento Max Wolff Filho e o tenente Ary Weber Rauen.
Existiram casos de soldados da mesma família que lutaram na Força Expedicionária Brasileira (FEB) e nas Forças Armadas Alemãs (Wehrmacht)?
Existe pelo menos um caso comprovado de família de origem alemã residente no Brasil que teve um filho que lutou no exército brasileiro e outro no exército alemão. Mas é claro que esse caso pode não ser o único.
Recente pesquisa realizada por historiadora da USP constata que o partido nazista brasileiro foi o maior do mundo fora da Alemanha. As famílias que enviaram seus filhos para lutar pela Alemanha eram filiadas ao partido de Hitler?

Irmãos brasileiros que lutaram por Hitler e voltaram ao Brasil
Entre os entrevistados que participaram de minha pesquisa não encontrei nenhum caso sequer de família filiada ao partido nazista. Contudo, os arquivos da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) sobre a ação do partido nazista apontam que havia uma ação deliberada nesse sentido. A política partidária adotada era convencer os jovens em idade de prestar o serviço militar a viajarem para a Alemanha e lá servirem às Forças Armadas Alemãs.
Antes do embarque para a Alemanha era realizado aqui no Brasil um exame médico, que atestava que o candidato estava à altura dos padrões físicos exigidos para o serviço militar na Alemanha. O estímulo para esta iniciativa residia nas possibilidades de estudo e trabalho que se abriam, a partir da prestação do serviço militar, com a plena concessão da cidadania alemã.
Por que retornar à Europa na iminência de uma guerra?
Hoje sabemos que a guerra eclodiu em setembro de 1939, mas naquela época era impossível prever se e quando isso se daria. Os indivíduos que entrevistei são quase unânimes em afirmar que suas famílias regressavam devido às inúmeras oportunidades de trabalho, estudo e ascensão social que então existiam na Alemanha.
As condições de emprego, nível de vida e paz social na Alemanha, em especial após a anexação da Áustria (Anschluss), eram particularmente atrativas. Um estímulo adicional para o retorno à Alemanha eram as notícias recebidas de familiares que lá residiam, enfatizando as vantagens de se deixar o Brasil e retornar à Europa.
Um de seus entrevistados, apelidado pelos colegas alemães de uniforme como "o americano", arriscou a própria vida ao justificar sua recusa de combater na frente italiana por não poder lutar contra seus "patrícios" brasileiros. Este sentimento de brasilidade também se encontra em outros entrevistados?

Cartão de aniversário para o 'americano': comendo banana em cima de palmeira
Esse caso é único, excepcional mesmo. E cabe notar que ele estava preocupado tanto com seus colegas de infância que havia deixado no Brasil quanto consigo mesmo, ao saber que seria destinado a lutar na frente italiana, para onde a Força Expedicionária Brasileira notoriamente havia sido deslocada.
Ele tinha plena consciência tanto de que podia se tornar responsável pela morte de seus antigos amigos que haviam sido recrutados pelo exército brasileiro, quanto de sofrer as represálias destinadas aos "traidores" do Brasil, se por acaso fosse capturado pelos brasileiros. Os demais engajados pelas Forças Armadas Alemãs sempre agiram e lutaram como os outros alemães.
Devido à pouca idade a maioria deles foi lançada em combate quando a guerra já estava abertamente perdida para a Alemanha. É natural que seus interesses estivessem voltados para a sobrevivência própria, de suas famílias e da Alemanha. O Brasil estava longe das suas preocupações.

Hitler tentou "nazificar" alemães no Brasil

Nacionalismo brasileiro era incompatível com a agressiva política nazista. Guerra acelerou queda de Vargas, bem como a industrialização e americanização do país, diz professor.

Seitenfus: 'Minoria alemã foi alvo da propaganda nazista'
Em entrevista à DW-WORLD, o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (RS) Ricardo Seitenfus fala sobre o significado para o Brasil do final da Segunda Guerra Mundial. Autor do livro O Brasil vai à Guerra, ele aborda também a incompatibilidade entre o nacionalismo brasileiro e a política agressiva do nazismo, bem como as perspectivas de Brasil e Alemanha obterem mandatos no Conselho de Segurança da ONU, cuja reforma considera um ponto final do conflito ocorrido entre 1939 e 1945.
DW-WORLD: O que significou e/ou ainda significa o dia 8 de maio de 1945 para o Brasil?

Ricardo Seitenfus: O Brasil foi o único país latino-americano a participar efetivamente dos combates da Segunda Guerra Mundial ao enviar, em 1944, 26 mil soldados para o front italiano. Além disso, foi o primeiro país da região a romper as relações diplomáticas e comerciais com o Eixo (janeiro de 1942) e muito cedo lhe declarou guerra (agosto de 1942). Tal evolução colocou o Brasil no campo dos vencedores da guerra – o que levou o país a aspirar, sem sucesso em razão da oposição soviética, a integrar como membro permanente o Conselho de Segurança da ONU –, e o epílogo da guerra provocou profundas mudanças internas e externas para o país. Eis as principais:
  • Tendo conquistado junto aos Estados Unidos apoio técnico e financeiro para o lançamento da indústria pesada – caso de Volta Redonda –, a economia do Brasil ingressa num ciclo de extraordinária industrialização que contrasta com o país agrário e atrasado que o caracterizava até então. Um pólo industrial se estabelece no triângulo São Paulo/Rio de Janeiro/Minas Gerais, que muda a face do país. Moderniza-o, provoca uma dupla migração campo/cidade – com elevados índices de urbanização – e Nordeste/Sul, provocando um desequilíbrio de desenvolvimento entre as regiões brasileiras. Surge uma classe média urbana que ditará os valores culturais e decidirá os rumos da política nacional. O desenvolvimento econômico brasileiro será estreitamente vinculado ao capitalismo internacional, sendo o país – pela primeira vez em sua história – integrado ao sistema internacional. A Alemanha Ocidental será, nessa fase, um dos principais parceiros do país.
  • A mais imediata conseqüência política interna do final da guerra consiste no escancaramento da insustentável situação do presidente Getúlio Vargas – ditador desde o autogolpe de novembro de 1937 –, que é expulso do poder em 1945 e substituído, por meio de eleições, pelo general Eurico Gaspar Dutra. Tem início, então, um ciclo de aprendizado da democracia que é interrompido com o golpe militar de março de 1964 e retomado em 1990.
  • A vitória aliada significa igualmente o fortalecimento e o aprofundamento do papel dos militares na política brasileira. Apesar das hesitações manifestadas pelos militares até dezembro de 1941, a partir de então eles desfrutam de um sentimento nacional que percebe as Forças Armadas como depositárias fiéis da Nação.
  • As relações exteriores brasileiras conhecem uma profunda "americanização", tal como ocorreu na segunda metade do século 19. Washington encontra no Brasil um aliado confiável e o Brasil, por sua vez, não consegue perceber seus interesses no plano internacional sem referir-se aos Estados Unidos. Sai fortalecida do episódio, portanto, a influência – cultural, financeira, comercial, política, tecnológica – dos Estados Unidos no Brasil, a qual não encontra – como sucedeu na década de 1930 – nenhum obstáculo ou concorrente.
No livro O Brasil vai à Guerra, o Sr. analisa o envolvimento brasileiro no segundo conflito mundial, mostrando como os países periféricos penam para se enquadrar, quando os grandes resolvem brigar. Qual foi o custo/benefício do Brasil ao praticar, no período da guerra, uma política externa mais parecida com um jogo de pôquer? O Brasil foi obrigado a entrar no conflito ou foi porque assim o desejou?

Capa do livro 'O Brasil vai à Guerra', de Ricardo Seitenfus
O Brasil foi um ator marginal ao drama da Segunda Guerra Mundial. Ele não possuía nenhum interesse aparente no conflito. Contudo, quando a guerra deixa de ser somente européia e se transforma em hecatombe mundial, nenhum país, por mais marginal que fosse, deixa de ser afetado. Neste sentido, o Brasil é conduzido à guerra muito mais pelas circunstâncias do que por um desejo belicoso. Em razão de sua extensão territorial (8,5 milhões de km²), de suas riquezas naturais, em particular os produtos fundamentais em tempos de guerra, sua localização estratégica que domina uma larga face do Atlântico Sul e a localização em seu solo de importantes núcleos de colonização oriunda dos países do Eixo – mormente alemães –, o Brasil logo se vê confrontado com os dilemas dos anos 1930 e da luta entre democracia e totalitarismo.
Em seu estudo, o Sr. confirma algumas interpretações da historiografia oficial sobre o vai-e-vem do Brasil na Segunda Guerra (a questão da Usina Siderúrgica de Volta Redonda, o oportunismo de Vargas, a simpatia de alguns integrantes de seu governo pela Alemanha etc). Que outros aspectos ainda pouco conhecidos influenciaram as posições assumidas pelo Brasil durante o conflito?
A principal contribuição inovadora de meu estudo à historiografia da Segunda Guerra Mundial consiste na afirmação consolidada de que o Brasil rompe com a Alemanha no início de 1938 em razão da incompatibilidade entre o nacionalismo brasileiro e a política agressiva do NSDAP (Partido Nacional-Socialista Alemão dos Trabalhadores) no Brasil junto à oposição a Vargas e sobretudo sua tentativa de manipular e "nazificar" a minoria alemã localizada essencialmente no Sul do país. A estratégia alemã de submissão da minoria alemã à ideologia nazista e a participação de Berlim na tentativa de putsch da Ação Integralista Brasileira contra Vargas, em maio de 1938, conduz o ditador a romper com a Alemanha. Certamente muitas peripécias ocorrerão a partir do início da guerra em setembro de 1939. Contudo, há uma consciência progressivamente majoritária dentro do governo brasileiro sobre a contradição em fortalecer o nacionalismo – força indispensável para a criação da nação brasileira – e os esforços feitos pela Alemanha para supostamente "proteger" a colônia alemã e seus descendentes. Essa mudança de perspectiva da atuação brasileira frente à Alemanha em particular e ao Eixo torna relativo o oportunismo de certos membros do governo brasileiro – em particular do próprio Vargas – quando da vitória do Eixo de maio de 1940.
No artigo O tardio final da Segunda Guerra (de 07/10/2004), o Sr. classifica a planejada reforma do Conselho de Segurança da ONU como "verdadeiro epílogo da Segunda Guerra Mundial". O Brasil pleiteia no G4 (junto com a Alemanha e o Japão – dois países do Eixo Berlim-Roma-Tóquio – e a Índia) um assento no CS e já participa de missões da ONU. Se conseguir a vaga, o Brasil será uma espécie de representante da América Latina no CS? Isso enfraqueceria a hegemonia que os EUA exercem sobre a América Latina desde a Segunda Guerra?

Manmohan Singh (primeiro-ministro da Índia), Junichiro Koizumi (premier japonês), Luiz Inácio Lula da Silva (presidente do Brasil) e Joschka Fischer (vice-chanceler da Alemanha) querem vagas para seus países no Conselho de Segurança da ONU
Parece-me evidente que o possível ingresso no Conselho de Segurança da ONU da Alemanha e do Japão (a Itália também reivindica tal ascensão) colocará um ponto final à Segunda Guerra Mundial. No caso brasileiro, trata-se de uma antiga reivindicação. Com efeito, em 1926, o Brasil – então membro do Conselho da Liga das Nações (LDN) – utilizou de forma dramática e contraproducente o seu poder de veto ao ingresso da Alemanha no Conselho da LDN após os Acordos de Locarno. Quando da definição dos membros permanentes da ONU em 1945, a candidatura brasileira foi novamente apresentada. Ora, o único país que a apoiava abertamente na ocasião – os Estados Unidos – atualmente conserva um cauteloso silêncio. Caso o Brasil ingresse no CS da ONU, ele não o fará como "representante da América Latina" mas sim em razão de sua "representatividade". Ou seja, o país reúne atributos e uma vontade de servir à paz que pode ser útil ao enfraquecido multilateralismo dos tempos atuais. Certos Estados latino-americanos, como a Argentina e o México, já deram demonstrações de desconforto e de oposição velada à candidatura brasileira. O tema divide a América Latina e, portanto, o Brasil não deve cometer o mesmo erro de 1926, quando imaginou representar a América Latina e essa, finalmente, o desautorizou.
O eventual ingresso brasileiro no CS da ONU somente se tornará realidade – por óbvias razões políticas e jurídicas – caso os Estados Unidos concordem. Nestas condições, não vejo uma oposição entre os dois países, mas sim um complemento. Há muitos sinais emitidos pelo Brasil de sua disposição a um maior protagonismo na cena internacional, em especial no entorno sul-americano. Não creio que tal estratégia objetive criar um movimento contra Washington na região. O que está em jogo é algo mais sutil e profundo. Ou seja, se trata de encontrar mecanismos no sistema internacional que ofereçam aos países do Sul outra perspectiva distinta, que complemente a luta contra o terrorismo, buscando combater suas raízes que se encontram na xenofobia, no racismo, na intolerância, no subdesenvolvimento e nas incontáveis injustiças que sofre grande parcela das populações do Sul do planeta.

Ricardo Antônio Silva Seitenfus é doutor em Relações Internacionais pelo Institut Universitaire des Hautes Etudes Internationales de Genebra (Suíça), autor de várias obras sobre política externa brasileira e relações internacionais, especialmente a obra O Brasil vai à Guerra (Editora Manole, São Paulo, 2003, 3ª edição, 365 p.). Atualmente, é professor titular na Universidade Federal de Santa Maria e diretor da Faculdade de Direito de Santa Maria (Fadisma), RS, Brasil.

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